Coreografia de misturas
ADRIANA PAVLOVA
(Matéria publicada no Globo em 16/06/04)
Depois de um primeiro semestre com poucas atrações de dança na cidade, sobretudo de peso internacional, julho anuncia-se bem mais movimentado para os baletômanos. Com a companhia de Merce Cunningham enfim garantida nos dias 9 e 11 no Teatro Municipal, surge na programação agora outro espetáculo vindo de fora: o Ballet du Grand Théâtre de Genève, que desembarca no Rio com trabalhos de três coreógrafos contemporâneos. Por falta de datas no Municipal, a companhia suíça fará suas duas apresentações, nos dias 23 e 24 de julho, no Teatro Odylo Costa, Filho, no campus da Uerj, no Maracanã.
O Ballet du Grand Théâtre de Genève
volta ao Brasil 12 anos depois de sua última passagem.
Aqui, após a estréia no Rio, o grupo segue
para Joinville (onde participa do tradicional festival de
dança) e São Paulo. A proposta do produtor
brasileiro Afranio Bittencourt, é apresentar um trabalho
baseado na diversidade coreográfica, marca do grupo.
No Ballet de Genève não há um criador
residente, e sim vários, que são requisitados
de tempos em tempos para as duas estréias anuais
no palco do balé em Genebra. Essa fórmula
gerou um time de coreógrafos de primeiríssima
linha. Uma mistura bem-vinda de nomes como George Balanchine,
John Neumeier, Mats Ek, Jiri Kylian, Maguy Marin, Twyla
Tharp e William Forsythe, além de mais jovens como
Christophe Maillot e Michel Keleminis.
Peças de Nacho Duato, Teshigawara e Foniadakis
Para o Brasil, a escolha coreográfica recaiu sobre nomes nem tão conhecidos aqui. Há, sim, uma peça de Nacho Duato (“Remansos”), espanhol cujas criações já passaram na cidade nos pés de grupos como o americano Hubbard Street Dance, mas também trabalhos do japonês Saburo Teshigawara (“Para-Dice”) e do grego Andonis Foniadakis (“Selon désir”). Trata-se de uma aposta curiosa: principalmente quando, fora de festivais, é raro ver produtores acreditando em coreógrafos pouco ou nada conhecidos dos brasileiros.
— Optamos por fugir do óbvio — defende Rômulo Ferraz, sócio da produtora Coffee Studio, que, com a vinda do balé de Genebra, inaugura a faceta internacional de seu negócio, cuja lista de clientes já inclui produções regulares para o Ballet da Cidade de São Paulo e para a Cia. Cisne Negro, também sediada na capital paulista. — É uma chance de experimentar, mas principalmente de apresentar trabalhos de coreógrafos que estão despontando na Europa.
A título de explicação, Teshigawara faz parte de uma geração de coreógrafos japoneses pós-butô, aliando influências orientais à dança moderna e, como conseqüência, tornando-se requisitado em palcos europeus, com criações para companhias como o Balé de Frankfurt e o Nederlands Dans Theater. Foniadakis tem sua história atrelada ao Ballet Lausanne (leia-se Maurice Béjart) e ao Ballet da Ópera de Lyon. Seu primeiro trabalho, “In between”, data de 1994, seguido de “Court métrage”, criado para a companhia de Lausanne.
— Talvez seja o nosso programa mais poético e também o mais representativo da diversidade da companhia desde sua fundação. Poderíamos ter trazido um espetáculo com uma peça única, como “A sagração da primavera”, de Béjart, porém não daria a dimensão da versatilidade dos nossos bailarinos — diz Vitorio Casarin, brasileiro que por dez anos foi bailarino do grupo e hoje trabalha como assistente de produção. — Raramente, o público verá um conjunto de obras que cobre tanto dos bailarinos como este. É puro fôlego.
Bruno Cezário fará turnê de despedida antes de ir para a Suécia
Na temporada brasileira, a companhia virá com 23 bailarinos, numa mistura curiosa de 14 nacionalidades, entre as quais a brasileira. Três brasileiros fazem parte da turnê — Fernanda Barbosa, Bruno Cezário e Luciana Reolon. Destes, Bruno é bem conhecido no Rio, onde, durante algumas temporadas, fez bonito no Balé do Teatro Municipal. Para ele, a turnê servirá como uma despedida antes de deixar a Suíça para trabalhar no Cullberg Ballet, da Suécia.
Viagens pelo mundo são uma constante no dia-a-dia da companhia suíça fundada em 1962. Anualmente, o Ballet du Grand Théâtre de Genève faz cerca de 90 apresentações ao redor do mundo, com temporadas fixas em cidades européias como Paris. Em Genebra acontecem pelo menos duas grandes estréias anuais, sempre com coreógrafos múltiplos. Para a próxima temporada, por exemplo, estão sendo criadas peças novas de Lucinda Childs e Carolyn Carlson. Hoje, o grupo é dirigido pelo francês Philippe Cohen, cujo currículo inclui trabalhos de assistência de direção com Dominique Bagouet, estudos com Merce Cunningham e uma temporada à frente do Centro Nacional de Dança, em Angers, na França.
A produção brasileira do Ballet de Genève só lamenta que a companhia não possa se apresentar no palco nobre do Teatro Municipal. Segundo Rômulo Ferraz, as datas foram solicitadas desde fevereiro mas, só depois de 28 telefonemas da produção para o teatro numa única semana, eles conseguiram descobrir que a pauta não estaria disponível.
— Não houve explicação oficial por e-mail ou fax. Por isso estamos apostando no Teatro Odylo, que, apesar de não ter tradição, é um ótimo palco, além de ter capacidade para 1.100 pessoas — diz Rômulo.