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Ballet de Genève traz 3 peças ao Brasil
INÊS BOGÉA
(CRÍTICA DA FOLHA)
(Matéria publicada na Folha de S.Paulo em 24/05/04)

Em julho volta ao Brasil, após 12 anos, o Ballet du Grand Théâtre de Genève (BGTG). Nesta temporada (Rio de Janeiro, Joinville e São Paulo), o Ballet, que trabalha com uma diversidade de criadores, trará "Remanso", do coreógrafo espanhol Nacho Duato, "Para Dice", do japonês Saburo Teshigawara, e "Selon Désir", do grego Andonis Foniadakis.

Cena do espetáculo do Ballet du Grand Théâtre de Genève, que vem ao país em julho

Fundada em 1962, a companhia foi dirigida ao longo dessas décadas por grandes nomes da dança como George Balanchine (1904-83), Peter Van Dyk (1929-97) e Oscar Araiz (1940-). Com 23 bailarinos de 14 nacionalidades, é dirigida hoje por Philippe Cohen. Subvencionada em parte pelo poder público, também tem patrocínio de fundos privados, que não influenciam na programação, segundo Cohen, em entrevista por e-mail para a Folha.

Nascido em 1953, Cohen foi bailarino e assistente do grupo de Dominique Bagouet. Estudou com Merce Cunningham e na escola do American Ballet. Foi coordenador dos estudos do Centro Nacional de Dança (Angers) e diretor do Centro de Estudos Coreográficos (Lyon); em 2003, tornou-se diretor do BGTG.

Para ele, o Ballet "pauta sua programação na diversidade de linguagens, por razões estritamente artísticas: abertura e desenvolvimento dos bailarinos; possibilidade de difusão da arte coreográfica no que tem de mais amplo; e oferecer ao público um leque tão amplo quanto possível dos modos estéticos da dança".

Nesta vinda, quer "mostrar aos brasileiros uma companhia aberta ao mundo de hoje e que assume as diferenças culturais".
Em "Para-Dice" (Para-Dados, trocadilho com Paradise/ Paraíso), criada por Teshigawara para o BGTG em 2002, o próprio sentido da dança é posto em xeque, pela mistura das linhas, dos corpos, dos tempos: beleza e fragilidade da existência diante de um mallarmaico jogo de dados. A música, do alemão Willi Bopp, combina cordas com música eletrônica e com os sons da própria sala.

Para Cohen, "Teshigawara desenvolve um gestual delicado e fluido que parece suspenso no espaço. Seu universo estético é cheio de uma interioridade quase mística, sem perder certa leveza mais próxima do humano".

A linguagem de Teshigawara, que nasceu em Tóquio e estudou balé clássico e artes plásticas, decanta diversas influências, acolhendo a liberdade de movimento na dança de cada bailarino. Desde 1985 tem sua própria companhia, Karas, junto com Kei Miyata.

Outra peça do programa, de Nacho Duato, foi criada originalmente para o American Ballet Theatre, sobre as "Valsas Poéticas", de Enrique Granados (1867-1916). A partir dessa primeira versão, acrescida de outras três peças do compositor, e inspirado na poesia de Garcia Lorca (1899-1936), Duato criou um novo trabalho para a Companhia de Dança Nacional da Espanha, da qual é diretor: "Remansos" (1997), que já integra o repertório do BGTG. Ali se expõe toda musicalidade de Duato: para cada passo, uma nota. A gramática de movimento vem do clássico, mas com acentos, linhas e dinâmicas próprias.

A terceira peça, "Selon Désir" (Segundo o Desejo), é do coreógrafo Andonis Foniadakis, que dançou no Ballet Lausanne e no Ballet da Ópera de Lyon. Para Cohen, a coreografia "é forte e vertiginosa, sustentada pela fulgurante música de Bach (1685-1750). Foniadakis se vale da potência técnica dos bailarinos, que transcende o gestual assombroso". O coro da "Paixão Segundo São Mateus", de Bach, cria a ambiência da dança. Céu e inferno, fé e martírio estão presentes na cena.

Para Cohen "a dança hoje está em pleno desenvolvimento e parece ter chegado à maturidade. Basta ver tudo o que se cria atualmente, o surgimento e a diversidade das pesquisas coreográficas. Foi Maurice Béjart quem disse que a dança é a arte do século 20; pode-se afirmar desde já que ela também é a arte do século 21".


 
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